Uma Língua sem Mapa

Não limitem a degustação de um bom gelado de chocolate à ponta da língua: isso é seguir um mapa com indicações duvidosas!

Imagem de Brian Talbot, disponibilizada com uma licença Creative Commons

Hoje foi-nos perguntado o que achávamos da realização de uma actividade para os mais novos relacionada com o famoso mapa da língua. Qual mapa da língua, pergunta o leitor? Aquele que nos tem vindo a ser ensinado há muitos anos, recorrente em manuais escolares e outra literatura de índole científico-pedagógica. Também aqui no Laboratório Aberto tínhamos já caído no erro de planear essa actividade, mas tal nunca foi avante porque… o mapa da língua é um mito!

:: A Alegada Organização da Língua

O célebre mapa atesta que percepcionamos diferentes sabores em diferentes zonas da nossa língua. Assim, na ponta, seríamos capazes de identificar o doce; nas zonas laterais exteriores, o salgado; nas laterais interiores, o ácido; no fundo da língua, o amargo. Esta organização fez até com que vários fabricantes de copos de vinho para enólogos desenhassem os seus copos de forma a garantir que a bebida tome uma trajectória que tire proveito da fantástica organização deste músculo. Mas será mesmo assim?

:: A Importância de Experimentar

Deparei-me com este assunto pela primeira vez quando, juntamente com uma colega que esteve já no Laboratório Aberto, se decidiu realizar esta actividade com turmas do primeiro ciclo. Apercebi-me, nesse dia, que eu nunca havia testado o alegado mapa. Ora, é uma regra sobejamente conhecida a de nunca realizar uma actividade sem a ter experimentado antes, pelo que, no dia seguinte, estava já rodeado de água com açúcar, água com sal, café e uma caixa de cotonetes. Comecei pelo café: mergulhei a cotonete no copo de plástico e toquei-lhe com a ponta da língua. Estranho: apesar da ponta da língua ser a zona do doce, foi imediata a percepção do azedo do café. Achei que era um efeito psicológico e pedi a colegas para me darem a provar a cotonete humedecida de um copo escolhido por eles, sem que me dissessem qual. Resultado: fui capaz de sentir qualquer um dos sabores em qualquer parte da língua. Achei que alguma coisa estava errada e decidi ir pesquisar um pouco mais sobre o assunto.

:: A Origem de um Mito

Depois de uma simples busca no Google com as palavras tongue map (ínglês para mapa da língua), eis que surgem dezenas de páginas sobre o facto de este não ser mais que um mito, com origem numa má interpretação dos resultados de uma experiência. Em 1901, um investigador alemão chamado D.P. Hanig decidiu testar a sensibilidade relativa da língua aos quatro gostos conhecidos (hoje sabe-se até que são cinco!). Ele não trabalhou com nenhum mecanismo para controlar a subjectividade dos voluntários nem utilizou qualquer grupo de controlo, mas foi capaz de concluir que a sensibilidade da língua não era homogénea e que, por exemplo, o máximo de sensibilidade para o doce estava na ponta. Mais tarde, em 1942, um psicólogo chamado Edwin Boring decidiu usar esses mesmos dados para trabalhar numa variação quantitativa da sensibilidade e esboçar um diagrama. Esse diagrama foi mal interpretado e confundiram-se as zonas de baixa sensibilidade relativa com zonas sem sensibilidade: nasce assim o mapa da língua!

:: O Que Sabemos Hoje?

Em 1974 os resultados de Hanig foram examinados novamente por uma investigadora de nome Virginia Collings, que acabou por realizar ela própria outras experiências para completar os dados. O que constatou ela: há, de facto, variações na sensibilidade relativa da nossa língua, mas as diferenças são tão pequenas que acabam por ser insignificantes! Todos os gostos podem ser detectados por qualquer zona da língua que possua papilas gustativas, e a sensação de sabor funciona por mecanismos tão complexos que é irrelevante tomar em consideração estas pequenas flutuações. Mesmo quando achamos que somos capazes de detectar essas diferenças, tal deve-se mais à sugestividade do nosso cérebro que à sensibilidade da nossa língua.

No entanto, 1974 já foi tarde de mais. O mapa da língua já se tinha difundido de tal modo que se tornou complicado destruir o mito. Dos manuais escolares aos livros de divulgação, dos museus de ciência às actividades promovidas por instituições e escolas, o mito do mapa da língua crescia e apoderava-se do nosso imaginário colectivo.

O paladar é um sentido muito interessante e complexo! Fica desde já agendado voltar a abordar este assunto com mais detalhe!

Links:

6 thoughts on “Uma Língua sem Mapa

  1. Muito interessante! Aliás, de todos os posts que têm vindo a fazer, este é o meu favorito (tenho assim uma panca por medicina – estarei, pois, receptivo a mais posts relacionados com o ser humano). Continuem com esta excelente iniciativa, que eu estarei aqui de visita todos os dias.

  2. Uma pequena chamada de atenção.
    Pode não existir o “MAPA DA LINGUA” mas:
    artigos recentes mostram que:
    1-existem células “sensoras” para cada um dos sabores considerados no mapa da lingua,
    2- essas células “sensoras” NÃO estão distribuidas uniformemente na lingua
    3-as fibras nervosas presentes na lingua que transmitem a informação “sabor” ao cerebro, nao estao uniformemente distribuidas nem funcionam com a mesma “sensibilidade” para o mesmo estimulo.

    Por isso, embora o “MAPA” seja um conceito simplista e ultrapassado, encerra em si mesmo a ideia de heterogeneidade espacial na percepcao do sabor e isso parece estar correcto.

  3. Filipe,

    Obrigado pela excelente resposta.

    No entanto não concordo com a última parte: não me parece que tenha sido o “mapa da língua” a apontar no sentido correcto para a ideia da heterogeneidade, mas os sim os estudos de Harig, Boring e, mais tarde, Collings. Estes concluíram, como foi explicado no texto, que a percepção dos sabores não era, de facto, homogénea, embora não soubessem porquê. Os estudos recentes explicam-nos exactamente esse porquê – um “delicioso” exemplo de como se trabalha em ciência🙂

    Já o “mapa da língua” encerra em si um conceito errado e perigoso: o de uma língua com “compartimentos” estanques.

  4. Pingback: Como se mata um mito? | n-Dimensional

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